“Escada na parede errada”

Tenho aproveitado meu “repouso forçado” para colocar em dia a leitura de vários textos, materiais e pesquisas sobre educação que tenho recebido.Mas, domingo é domingo e o meu não começa antes de um café demorado em família,conversa fiada com os meninos e uma leitura preguiçosa dos jornais. Já quase no finalzinho,lendo os comentários sobre a peça “Tio Vânia” de Tchekhov, que o grupo galpão está trazendo de volta,uma frase da diretora do espetáculo despertou minha curiosidade e me fez lembrar de um e-mail que recebi falando das amarguras de ser professor, “A escada na parede errada”.

Comentei outro dia lá no blog (www.focuseducacional.wordpress.com) a matéria publicada na revista Educação afirmando que “entre 84% e 89,2% dos professores acham que os problemas de aprendizagem decorrem do desinteresse e da falta de esforço do aluno”. Esse dado não me sai da cabeça e as vezes tenho a sensação de ter pendurado a escada na parede errada.

A educação entrou na minha vida por um acaso mas não é por acaso que continua nela. É preciso muito mais do que vocação para ser educador.É preciso interesse,uma sede constante de informação, um desprendimento. É preciso se jogar e ir atrás do que está por vir.Não dá para ficar parado com o pires na mão esperando que alguém nos forneça a condição de trabalho ideal para que então possamos fazer bem o que esperam que façamos com perfeição. Se uma ponte ou um prédio caem,culpamos a princípio o engenheiro. Se um paciente morre,culpamos a princípio o médico . Se a educação vai mal, culpamos a princípio o aluno, o salário, as salas lotadas, a falta de material, a políticas públicas…não que todos esses dados não sejam relevantes mas e o professor?

Não é por acaso também que grande parte das pessoas com as quais eu convivo sejam professores.E, sempre que os ouço estão reclamando ou se queixando,ou enviando e-mails de alguma “injustiça”, das dificuldades que encontram no seu dia a dia, enfim do sacrifício quase santo que é ser professor.

Hoje definitivamente percebi que “encostei a minha escada na parede errada” e resolvi deixar registrado para que quem sabe aqueles que ainda pensam em se tornar professores não desistam da idéia.

Há 17 anos pedi exoneração da Prefeitura por achar que a educação pública não me oferecia as condições que eu, na época, julgava necessárias ao excelente desenvolvimento do meu trabalho. Não preciso dizer que fui tida como louca por alguns. E a estabilidade no emprego? E a aposentadoria? E as licenças ? Tenho que confessar que aos 24 anos,e também agora aos 41, os loucos eram eles. Loucos, acomodados, se contentando com um “pode ser” quando poderiam conquistar o mundo!

OK, ainda não conquistei o mundo! Mas pelo menos fui responsável pelas minhas escolhas. Escolhi a educação privada e troquei…

1) Troquei a poeira do giz e o quadro negro, pelos smart boards,ou lousa digital interativa para os que não estão acostumados ao termo, e as canetas para quadro branco.
2) Troquei a sala cheia de alunos, por salas confortáveis, com ar e assistente.
3) Troquei o corre-corre de uma escola para outra por uma única escola.
4) Troquei o ticket de R$4,00 por pagar, eu mesma a minha refeição.sai mas caro, é verdade,mas posso arcar com isto e escolher o que quero comer
5) Troquei as “escolas modelo cujo slogan é a fartura: farta limpeza, farta funcionário..por excelentes escolas particulares.
6) Troquei “consultórios psiquiátricos repletos de professores que, ao completarem a idade e o tempo de serviço, já se encontram fatigados pelo trabalho, sugados pelo sistema e em pleno desmoronamento físico além do mental.” Pela minha qualidade de vida, pelo prazer de estar com amigos de conversar e me manter atualizada.
7) Troquei o “notebook” dado pelo governo por parcelar meu próprio notebook
8) Troquei a Estabilidade de um emprego público pelos riscos de uma escola privada.

Querem saber como? Deixei de esperar que o governo valorizasse a minha formação continuada e me selecionasse e passei EU mesma a investir na minha formação continuada. Busquei os melhores cursos, me candidatei a bolsas de estudo, passei tardes nas bibliotecas públicas lendo alguns livros de meu interessa quando não tinha dinheiro para comprá-los,passei horas na internet, mas não no facebook,orkut,ou repassando e-mails,mas pesquisando,lendo,me atualizando, buscando cursos e palestras grátis.

Já li a Vida de São Francisco de Assis. Mas li também Piaget,Vygotsky,Gardner,Martin Carnoy ,Philippe Perrenoud,Lópold Paquay, Marguerite Altlet, Freinet, Montessori, Kamii…

Assim, optei por trocar o meu “lugar privilegiado no céu” por uma vida de qualidade na terra. Não “paguei” para entrar mas me preparei muito e continuo me preparando pois como não tenho “estabilidade no emprego” se não estiver atualizada, corro o risco de perder a vaga e ser substituída por outro que esteja mais preparado do que eu. Também não “rezei” para sair. Ao invés disso confiei na minha capacidade, tive coragem e procurei outros caminhos.

Não perdi a oportunidade e muito menos desisti. Não fiz voto eterno de pobreza e nem sou uma exceção. Faço o que a maioria dos profissionais -contadores,advogados,analistas de sistemas,publicitários,jornalistas,fotógrafos,músicos,artistas….-fazem.Sou responsável pela minha formação , busco o meu sucesso, uma qualidade de vida e principalmente optei por trabalhar em um lugar que me realize e me dê retorno financeiro.

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